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Autárquicas 2017: Lisboa, a cidade luminosa que resiste à misoginia política a que chamam "dinamismo económico"

Quinta-feira, 07.09.17

 

 

 

Debates dos candidatos à câmara de Lisboa, na SICN e na TVI24. O que estes debates revelaram é verdadeiramente surpreendente:

O candidato mais preparado para compreender e valorizar Lisboa é João Ferreira. Secundado pelo candidato Ricardo Robles, que define a habitação como prioridade, e pelas candidatas Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que percebem o que está em causa, o equilíbrio e a sustentabilidade de uma cidade, e dos seus habitantes, que merecem melhor tratamento. E o candidato que pior lhe irá fazer, espero que não seja irreversível, é o actual presidente, Fernando Medina, e o seu "dinamismo económico".

 

Lisboa é uma cidade que sempre visualizei no feminino. Luminosa, acolhedora, versátil, sábia. Nem todos a compreendem mas todos a querem mudar e descaracterizar. Sem a compreender, como é que a podem valorizar? Lisboa resiste a esta misoginia política. A questão é: até quando?

 

Na mobilidade, um bom sistema de transportes públicos é fundamental para retirar pressão automóvel sobre o centro da cidade. O metro é o melhor transporte em rapidez, frequência, comodidade. Todos percebem isto. Mas, como João Ferreira demonstra num discurso bem articulado, se o preço do bilhete é superior à utilização do carro, como se motivam as pessoas a não utilizar o carro na cidade?

Também demonstrou que a ideia de uma linha circular pela periferia da cidade só vai piorar a acessibilidade da periferia ao centro, pois os utilizadores terão de fazer transbordo. É fácil de perceber. E sabem quanto estão a pensar investir nessa obra inútil? 12 milhões, foi o que percebi. Desconfio que será bem mais do que isso.

Lisboa, Lisboa...

 

A pressão do turismo sobre a habitação, outro desafio. A cultura dos vistos gold e o actual deslumbramento com o turismo de massas e de hotéis para ricos, está a empurrar os residentes do centro para a periferia. O preço das casas torna-se incomportável, o mercado de arrendamento segue a curva ascendente, e lá vai parte da alma lisboeta para onde não incomode. E o que irá acontecer ao comércio tradicional?

Aqui João Ferreira é secundado por Ricardo Robles, que se entusiasma com este desafio. É possível evitar a especulação imobiliária.

 

A pressão do turismo sobre o centro da cidade foi bem explicado por João Ferreira. A solução é diversificar o turismo por diversos pontos da cidade.

Visualizei o Terreito do Paço invadido por multidões de turistas a sair de embarcações de cruzeiro, a desembocar na Baixa e no Chiado, no Castelo e em Alfama, numa azáfama colorida e ruidosa, e estremeci. É essa a Lisboa de Medina.

Lojas que se transformam em formas de vender artefactos de gosto duvidoso que desfiguram a alma de Lisboa. A sua cultura antiga, de muitas camadas, que se vai revelando a pouco e pouco, nas ruas empedradas, nos azulejos que ainda não roubaram, nos vestígios que permanecem, nos jardins, nas praças, nas escadinhas, nos elevadores eléctricos, nos miradouros, nas igrejas, nos museusnos teatros, nas livrarias.

E depois, a Lisboa da ciência. Os laboratórios, os anfiteatros, os armários de madeira, como eram inovadores e poéticos.

A Lisboa da botânica, a Lisboa da geologia, a Lisboa das descobertas, curiosa e inteligente.

E também a Lisboa da cerâmica, do azulejo, da arte sacra, do mobiliário.

Não, não esqueci a Lisboa do fado. Há um turismo exclusivo do fado.

 

Há muitas camadas em Lisboa. A Lisboa dos palácios reais, magnífica e sumptuosa, num país falido. Este contraste é, ele próprio, didáctico.

Assim como a Lisboa burguesa estrangeirada, vaidosa, decadente e fútil, tão bem retratada em Eça, mas que não desejaríamos replicar.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:08








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